Depois que a vida adulta se revelou tão traiçoeira
quanto meus pesadelos mais mórbidos, percebi que a vulnerabilidade é uma
questão de dignidade. A coragem para ser vulnerável pode se confundir com
fragilidade, com a ânsia de livrar-se do passado e, de fato, se for uma forma
de se livrar do passado, é uma das coisas mais eficazes que já experimentei.
Talvez, pela primeira vez, eu tenha experimentado o que
realmente significava uma pessoa ser alheia a si mesma, não que eu manifestasse
uma ridicularização de meus sentimentos ou que um descaso deles permitissem que
eu me movesse e olhasse para o lado de fora. Meus olhos permitiram que eu visse
um novo tratado, uma nova divisão, uma nova convenção de sentidos antes
ignorados pela minha falta de fé ou até mesmo pela fé que tinham em mim. Mesmo
sustentando um argumento de 99% de ateísmo, não estou impedido de receber
orações, afinal, meu ateísmo não transforma quem me ama em ateu.
Não falo de fé em um deus —
pelo menos, não no meu caso —,
as pessoas compensam minha falta de fé com a própria fé que elas transbordam. O
meu 1% que resta ainda acredita que posso ser influenciado e que posso receber
algum tipo de bênção ou milagre, seja de qual natureza for. Da mesma forma que
a menor distância entre dois apaixonados seria um beijo, também reconheço que
os menores passos que eu pude dar, foram em direção ao que eu tinha por
convicções. E acredite, sempre odiei ter convicções, mas vivi perdido em minhas
próprias ideias de mundo sem perceber, ditando a regra dos 99%, como se eles
valessem mais que o 1% restante.
Parece uma tentativa frustrada de introduzir meu
pensamento absurdista em uma perspectiva romântica quando falo de fé. No
entanto, se eu não falar sobre isso, pelo menos deixando claro minha
hipocrisia, o desabafo não teria valor algum.
Pois entramos em 2026, um ano de promessas e altas
expectativas. É o ano em que se cumpriria uma profecia em minha vida, onde uma
série de acontecimentos coincidiria, tanto crises —
que para qualquer pessoa não calejada pareceriam
extremamente caóticas — quanto
boas-novas que mudariam tudo, poriam um final em um ciclo de sofrimento para se
iniciar outro (risos). Mas nem só de sofrimento vive o homem, pois onde há
sofrimento também há alegria.
Posso dizer que tais expectativas ofuscaram boa parte
do que eu tinha para observar da vida real, ou poderia dizer, da vida que me
era alheia, onde eu poderia interagir e, novamente, por causa de minhas
certezas — um tanto obscuras —, deixei de interagir, observar e até
desejar. É o resultado de quando deixamos certos estigmas travarem nossas
vidas, e isso se torna tão natural que o momento mais crucial é amenizado, todo
o sentido que procuramos a vida toda, toda a essência parece sofrer de um belo
eufemismo. E costumo pensar que se há beleza na tragédia, também há beleza na
superação. Porém, uma das perguntas que me instigou a escrever isso foi: Valeu
a pena negligenciar uma mínima possibilidade superação?
De tantos nomes que dei aos meus problemas, principalmente
aos românticos, e quando digo “românticos”, quero falar sobre minhas
idealizações, tanto em relacionamentos amorosos quanto em supervalorizar
expectativas e perspectivas que talvez nunca merecessem o valor de minhas
interações. Até que ponto deixar de interagir, ser alheio ao mundo, me
protegeu? Será que não somos humanos sem não interagirmos com o mundo?
Pois de toda a fé que negligenciei, recebi de volta e de
forma silenciosa e mascarada, o mais puro e sincero poder que qualquer pessoa
poderia ganhar (ainda não posso dizer exatamente o que é, mas você já deve
imaginar). Sem eu saber, enquanto reorganizava minhas peças quebradiças,
achando que minha muralha ainda estava de pé, quantas pessoas rezaram por mim?
Mas voltando à questão do absurdo, antes que eu fuja do
tema…
Quando proponho a ideia de vulnerabilidade, olho para uma
pureza de intenções que se tornam intermitentes se não forem bem administradas.
Não é uma fraqueza, mas sim uma forma de se expor corajosamente ao mundo,
levando consigo suas melhores e piores qualidades, onde nossas capacidades
social, intelectual e emocional são colocadas à prova. Não há uma melhor
maneira de fazer isso e acredito que não existe algum planejamento. Estar
vulnerável é, talvez, a melhor forma de interagir com mundo e apreender. O compartilhar
de experiências e a produção de sentido são tão ricos que tudo se torna ínfimo,
é como experimentar o calor e a dor da paixão pela primeira vez, encarar o
poder da rejeição, a força que ela exerce sobre você e dar a ela a mesma medida
de força ao recebê-la. Os corações se despedaçam como se fossem atingidos por
uma maça medieval, e mesmo assim você se arrasta para recolher os pedaços, para
colocá-los de volta no lugar, quase pronto para que alguém te atinja novamente
com toda força.
E como eu havia me esquecido disso? Talvez nunca tivesse
parado para pensar sobre. Por viver sempre no automático, no modo
“sobrevivência” como todo mundo, esse tipo de “coisa” não observável em
condições normais nunca se revelou. Se faz frio, você apenas percebe que está
frio e busca se aquecer, não faz sentido querer aproveitar o frio, tirar a
roupa no inverno depois de um banho gelado. Ninguém busca sentido no frio, em
participar ativamente de seu modus operandi.
Ao quebrar esse modo automático, me fazendo perceber e ser
parte do ambiente, não apenas interagindo com ele, também quebrei o ciclo da
sujeição de um mundo aparente que eu mesmo havia criado, fosse por vontade
própria ou não — desde quando os traumas desencadearam uma reorganização na
percepção desses significados —. Antes, toda música havia se tornado uma música
triste, agora as mesmas músicas poderiam contar outras histórias se eu
quisesse. Mesmo que isso significasse uma desonestidade intelectual e emocional
de minha parte. Às vezes nossas lutas podem começar de uma fuga, afinal,
precisamos começar ou recomeçar de algum lugar.
Eu fingia ser Sísifo enquanto me cobria com um manto da
invisibilidade. Mas não deve ser tarde para ninguém, perceber que o mundo está
de cabeça para baixo e não você quem luta contra as forças da natureza. Mesmo
encontrando uma dor ao fugir de outra anterior, tive um vislumbre, um pequeno
momento de alegria, em que não necessariamente minhas ações, mas minhas
vontades eram livres de pretensões. Eu só queria sentir… queria colocar o punho
no peito, puxando minha camisa para baixo com uma lágrima no rosto enquanto meu
peito conversava com meu cérebro, transmitindo informações que, mesmo eu não
entendo quimicamente, sabia exatamente o que significavam. Agora sei que posso
me sentir assim novamente, vulnerável, pois agora sei que não é covardia, é um
estado da coragem. Mesmo que uma acepção romântica de um coração partido tenha
sido suficientemente breve, acredito que não mais enxergo apenas com os olhos.
Não sei se teria chegado à mesma resposta sem as orações dos
crédulos, uma vez que meu silêncio havia criado uma barreira de areia
impenetrável. Percebi tardiamente que respeitaram até mesmo os pedidos de ajuda
que não fiz. Foi bom, de certa forma. E isso me faz questionar se sou 99% ateu,
já que eu nunca desisto, agora remendado, deformado ou reconfigurado. E se caso
não for, espero que meu espírito alcance o seu, que transmita minhas palavras
e, se estiver precisando sentir as coisas novamente, lembre-se que a maior
forma de sentir é sua própria coragem de ser vulnerável.
@albuquerque.fma

Comentários
Postar um comentário